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Fragmentos de um Livro leve com águas e anoitecimentos

Fragmentos de poemas de um Livro leve que virá com "Águas e anoitecimentos" de Edmir Carvalho Bezerra

Marcelino Freire

Tempo Ácido - poeta Malungo

Uma viagem entre becos e vielas, escombros e ruínas, pontes e palafitas que trafegam nos versos do poeta Malungo. Vídeo participante da 4ª edição da Mostra "TV no Parque" - agosto/2009

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Maltrato do Recife

Foto: Zé Afonso Stock

Estão querendo acabar contigo
[meu Recife
Não te respeitam como antes
(apesar de idade avançada)
te vejo suja, mal cheirosa,
em todo canto que passo
te vejo nua,
com uma avenida disforme
rasgando teu ventre.

Prédios sujos, mal acabados,
abandonados, assombroso,
assombrados,
completam o auto-retrato
de tua feiúra.

Mudaste muito,
não é mais aquela cidade 
chamada bela Recife
cantada em versos e prosas,
até os cinemas não existem mais.

Andas inchada,
abarrotada de tantos carros
poluída, esquecida, mal vestida.

Tenho pena de ti
[meu Recife
tenho pena de ti.

Jacytan Melo
Recife, 8/dezembro/2009

Imagem


Minha imagem,
presa nos labirintos
da existência humana,
luta para seguir rumo natural,
buscando uma saída.

Tempo passa depressa
sem dar tempo
de recompor fragmentos.

Hoje, só sombras passeiam
pelos corredores do imaginário.


Jacytan Melo
Recife, Novembro/2009

domingo, 20 de novembro de 2011

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Hilda Tempo> Hilst - Morte

 

Eu
Corroendo
Como Escadas Grandes
Da Minha Alma.
Água. Chamas Como te?
Tempo.

Antes Vivida
Revestida de laca
Minha alma tosca
Se desfazendo.
Chamas Como te?
Tempo.

corroendo Águas
Caras, coração
Todas de Cordas do Sentimento
Chamas Como te?
Tempo.

Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos escuros TEUs
Chamas Como te, breu?
Tempo.

Hilst, Hilda. Da morte. Odes Mínimas. São Paulo: Globo, 2003. p.71.
_______
Imagem: idiota
 
, para preen plumagem, desenho, agosto/2008.

Fonte: Imaginário Poético

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Morre Roberto Piva


Um maiores nomes da poesia marginal brasileira, o poeta Roberto Piva morreu em São Paulo, no sábado, aos 72 anos. O escritor sofria de Mal de Parkinson e estava internado desde o dia 13 de maio no Instituto do Coração por conta de uma insuficiência renal, que evoluiu para uma falência múltipla de órgãos.

Nascido em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937, Roberto Piva foi um poeta ligado aos marginais dos anos 60, tendo sido influenciado pelos autores da geração beat americana. Ele foi revelado na coletâneas "Antologia dos Novíssimos", de Massao Ohno, publicado em 1961, e "26 poetas hoje", de Heloisa Buarque de Holanda.

Piva foi professor na rede de ensino público, produtor de shows de rock e é um dos três únicos poetas brasileiros a ser citado no Dicionário Geral do Surrealismo publicado na França.

Em 2005, toda sua obra foi republicada pela editora Globo em três volumes - "Um estrangeiro na legião", "Mala na mão e asas pretas" e "Estranhos sinais de saturno". Seu primeiro livro, "Paranóia", publicado originalmente 1963, foi reeditado em 2009 pelo Instituto Moreira Salles.

Veja trecho de programa com Roberto Piva, exibido na TV Cultura



Leia o poema "Praça da República dos meus sonhos", de Roberto Piva

POEMA DA NOITE

Praça da República dos meus sonhos - Roberto Piva

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde Garcia Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa

Roberto Piva nasceu em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937. Poeta ligado aos marginais dos anos 60, esteve na Antologia dos Novíssimos de Massao Ohno em 1961 e em 26 poetas hoje de Heloisa Buarque de Holanda. Foi professor na rede de ensino público, produtor de shows de rock e é um dos três únicos poetas brasileiros a ser citado no Dicionário Geral do Surrealismo publicado na França.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


ESPELHO

Evito o espelho
toda vez que me vejo
diante dele
demoro pouco,
evito vê-lo.
Tenho medo de que!?
não sei!!!
apenas, evito vê-los.

Jacytan Melo

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Poema de Di Cavalcanti > Ali ela morava



Fonte: Imaginário Poético - revistaimaginariopoetico@gmail.com
 
Apresento a vocês uma verdadeira raridade que garimpei em um sebo: um poema de Di Cavalcanti publicado na Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, organizada e apresentada por Manuel Bandeira em 1946. Mas deixo que o próprio Bandeira apresente o pintor como poeta:

"O seu verdadeiro nome é Emiliano Cavalcanti, mas sempre se assinou Di Cavalcanti, e às vezes Emiliano Di Cavalcanti. (...) Teve atuação saliente no movimento modernista; foi mesmo dêle que partiu a idéia da 'Semana de Arte Moderna', realizada em São Paulo em fevereiro de 1922. (...) Se Di Cavalcanti não fôsse por vocação pintor, poderia ser escritor, pois tanto no verso como na prosa revela o dom da expressão aguda e original. Afora poemas avulsos, escreveu um livro de poesia, até o presente inédito, intitulado 'O Testamento da Alvorada'."

O Testamento poético de Di foi publicado em 1955 e atualmente só pode ser encontrado em alguns sebos pela bagatela de uma centena de notas e uma mão de moedas. Enquanto isso as grandes editoras brasileiras publicam ora autores nacionais que se ocupam com uma literatura de massa, ora traduções baratas de best sellers de autores estrangeiros cuja qualidade literária não vale as árvores que fizeram tombar para que suas páginas fossem impressas. Nesta perspectiva temos o placar de 3x0 para a publicação na web: 1 ponto porque não derruba árvores; mais 1 porque não se move ao sabor do mercado editorial, ao menos não necessariamente, e ainda outro por, democraticamente, disponibilizar textos importantes e até mesmo indispensáveis à cultura de uma nação, mas às vezes materialmente indisponíveis ao grande público.

Sendo assim, aproveitem um pouco do poeta Di Cavalcanti, pois é bom, gratuito e ecologicamente correto!
Abraço a todos,
dana paulinelli

 

[O Beijo, Di Cavalcanti, 1923]

A virgem morena
Pedia pecado.

Na noite do mêdo,
No lago das cobras,
Os olhos de fôgo
Da virgem morena
Queriam desgraças,
Queriam paixão...
O vento açoitava;
As flores dolentes
De espasmo murchavam


A virgem morena
Pedia pecado.

As pernas molhadas
De água cheirosa
Abriam-se em galho
No negro do céu.
Os seios da virgem,
O' seios da virgem!
Dois lírios de ouro.

A virgem morena
Pedia pecado.

A virgem morena
É a deusa do mal?

Assim contaram-me no barranco
do Rio Grande...

É aquela que mata
Os homens fogosos
Que tentam beijá-la?
É a morta viva dos infernos?
Não tem coração nem alma
Aquela que só deseja o dia
E vive na treva?
É ela a rainha de mil desejos flagelada?

A virgem morena
Pedia pecado.

Caiam dos ramos
Os frutos de sangue
Corujas e bruxas
Dançavam no ar,
As pombas noturnas
Morriam de amor.

A virgem morena
Pedia pecado.

Porque essa angústia
Na incompreendida virgem?
Êste céu negro
E o visgo verde das folhas venenosas?
Porque tanta coisa maldita
Cercando o corpo da virgem?

A virgem morena
Pedia pecado.

A morte beijou a virgem;

Gritavam caiporas
Uivavam as antas,
As onças hurlavam,
As cobras mordiam
As ancas das éguas.
O' gritos de corvos!
O' risos de loucos!

A morte beijou a virgem;

Nunca ninguém soube seu nome,
Seu corpo virou terra,
A erva daninha,
Nasceu pela terra
Com espinhos ferindo os pés dos homens.

A virgem morena
Pedia pecado.


DI CAVALCANTI, Emiliano. In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos. 1a edição. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1946. p.51,53.